22/04/2018

Antes do Golpe, prefeito de Natal que investia em educação era observado pelos EUA


Tudo está registrado em um documento do Departamento de Estado Americano que data de 11 de março de 1964. O AIRGRAM, ou Aerograma, era um termo diplomático dos EUA que designava uma mensagem enviada por correio através de mala diplomática, em vez de por telegrama. Escrito pelo “Ministro Cônsul Geral” chamado Edward J. Rowell, o documento trata do episódio em que o então prefeito de Natal, Djalma Maranhão, estende para o interior com o apoio de outros prefeitos o ousado programa de educação popular chamado “De pé no chão também se aprende a ler”, cuja pretensão era erradicar o analfabetismo em terras potiguares através de aulas de alfabetização ministradas em casas de palha com chão de terra batida.


Conforme relata o documento enviado para a Embaixada dos Estados Unidos no Rio de Janeiro, em 4 de março de 1964 o “nacionalista de esquerda” e prefeito de Natal Djalma Maranhão estendia para o interior do RN o programa educacional tão revolucionário à época. O relato confirma que o programa “De pé no chão também se aprende a ler”, criado por volta de 1961 e inspirado no método Paulo Freire foi responsável pela construção de escolas, aulas de alfabetização para adultos e crianças e cursos de formação de professores. Apesar do sucesso, ele considera no documento que, de alguma forma, “o programa tem sido um instrumento de politização das massas e orientação delas em favor de Maranhão”.

PANO DE FUNDO

O pano de fundo de todo esse interesse dos americanos nas ações do prefeito da capital potiguar estava na influência dos Estados Unidos nas democracias sul-americanas, principalmente em países que os americanos consideravam haver risco de um golpe comunista. Este era o caso do Brasil, que ensaiava uma aproximação a países inimigos dos EUA, como Cuba e China.

No caso específico de Djalma Maranhão, ele era um político que queria ver sua cidade em progresso. Responsável por obras como o Palácio dos Esportes, Estação Rodoviária, Galeria de Arte, entre outras, sempre apoiando e estimulando as manifestações de arte e cultura popular da cidade. No entanto, os americanos consideravam Maranhão um risco devido a seus ideais de esquerda e sua simpatia à Revolução Cubana. Djalma não foi poupado pelo Golpe de 64.

“COM O OLHO NO GOVERNO”

Prefeito Djalma Maranhão prestigiando festa popular

O documento continua relatando que na semana anterior mais de uma dúzia de prefeitos se encontraram em Natal, a pedido do prefeito de São Vicente, Raimundo Ferreira de Almeida, e organizaram a Frente Municipalista da Educação Popular, que iria incorporar mais de 40 prefeitos do interior que assinaram acordos com o programa lançado por Maranhão.

Em um comentário (ou crítica) ao final do texto, a mensagem contida no AIRGRAM dizia que o programa de Djalma Maranhão era um sucesso, politicamente falando, e estava aumentando notavelmente a popularidade do prefeito, que estaria “com um olho no Governo em 1965”, cuidando de espalhar sua imagem Estado adentro e que a Frente Popular seria uma excelente oportunidade para suas pretensões políticas.

Curiosamente, a História relata que poucos dias após esta mensagem ser escrita o Golpe Militar – entre o dia 31 de março e 1º de abril de 64 –  azedou de uma só vez o programa de Djalma Maranhão que foi responsável pela alfabetização de milhares de natalenses na década de 60. Com o Golpe de Estado, Maranhão foi deposto da Prefeitura e teve seu mandato cassado, ficando preso em quartéis do Exército em Natal, na ilha de Fernando de Noronha e no Recife.

DO EXÍLIO PARA A HISTÓRIA


Por força de um habeas corpus do Supremo Tribunal Federal, em dezembro de 1964 Djalma foi liberto da prisão e asilou-se na Embaixada do Uruguai. Morreu no exílio, aos 56 anos de idade e seus restos mortais repousam no Cemitério do Alecrim.

A vontade política de Maranhão e os investimentos em educação poderiam ter mudado a realidade do povo potiguar, mas seus planos foram interrompidos e os potiguares perderam uma educação que poderia ter reflexos até hoje no desenvolvimento do Rio Grande do Norte.

Djalma Maranhão deixou um profundo legado na educação e sua ausência deixou um profundo vácuo na história. Com uma visão futurista, procurou, em plena década de 60, educar a sociedade potiguar, pois entendia o valor da educação para o presente e futuro. Infelizmente seu programa foi interrompido e a impressão que se tem é que até hoje não surgiram novos “Djlamas”, que se interessassem pela educação, desde a base, e a tivessem como primordial para o desenvolvimento de um povo.

Veja o AIRGRAM:




Se você quer saber mais sobre o programa de Djalma Maranhão assista a este documentário produzido na época. O vídeo traz imagens incríveis de uma Natal pacata, com casebres à beira-mar e pessoas empenhadas em aprender a ler.


Via Todo Natalense

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