14/02/2019

Da séria "A Monarquia do Barulho"


ABERRAÇÃO 1: Bolsonaro e filho submetem um ministro de Estado a uma humilhação inédita na República. Será isso bom para o país? Não!

Gustavo Bebianno foi submetido à maior humilhação pública de que a Política tem notícia em muitos anos. Sim, mandatários já praticaram antes de deselegâncias. Lula, por exemplo, demitiu Cristovam Buarque, seu primeiro ministro da Educação, por telefone. Em tempos um pouco mais decorosos — inclusive no petismo —, ouviu-se um “Ohhh”. O presidente Jair Bolsonaro tratou Bebianno não como adversário, mas como inimigo. Na prática, este foi demitido, embora diga que não sai. O protagonismo assumido por Carlos — o filho do meio, o “Zero Dois”, o “pitbull” — é de uma truculência inédita, calculada e, em muitos aspectos, malsã. Porque põe numa situação difícil o próprio governo. O problema é que, como se viu, ele contou com anuência do pai, em quem parece exercer uma influência que chega a ser assustadora para padrões republicanos. Será que isso é bom para o país e para as reformas? Não.

ABERRAÇÃO 2: Bolsonaro retuíta a barbaridade escrita pelo filho, demoniza Bebianno e leva a crise para o Palácio do Planalto. É assombroso!

A história já é mais do que conhecida. Com os laranjas do PSL a se multiplicar, Bolsonaro resolveu arrumar um responsável, um bode expiatório. A deixou claro: é coisa de Gustavo Bebianno, a culpa é dele. E não se fez questão nenhuma de esconder a coisa da imprensa. Acuado, o ministro tentou a “Saída 17” do Manual de Sobrevivência Política. Disse que estava tudo bem, que não existia crise nenhuma e que já havia falado com o presidente três vezes. Ocorre que Carlos Bolsonaro (foto) havia gravado a resposta que o pai dera a seu ministro. Não podia conversar. Não queria papo. O Segundo Filho foi ao Twitter, desmentiu o ministro — desafeto desde a campanha — e ainda colocou no ar o áudio do pai. Sem a anuência deste? Viu-se que não. O pai retuitou o filho. E, com esse clique, demitia o seu ministro. Como a dispensa não foi formalizada, este afirmou que não sai. Bem, a pergunta é necessária, ainda que apenas retórica: caso Bebianno fique, que voz ativa terá? Quem vai querer falar com ele? Que garantia pode oferecer ao interlocutor de que fala com a anuência do presidente?

ABERRAÇÃO 3: Bolsonaro passa um recado ao mundo político: se preciso, alveja as lealdades, como fez com Bebianno. E ainda com humilhação

É claro que, ao tratar Gustavo Bebianno como pária, o cálculo de Bolsonaro é um só: evidenciar à opinião pública que ele não tem nada a ver com “isso daí”. Quem não se lembra de um vídeo de Lula, quando pululavam as evidências de malfeitos no escândalo apelidado de “mensalão”, a pedir desculpas à nação? Disse que não sabia de nada e que havia sido traído. Mas sem nominar culpados. Anunciou ainda que ninguém seria poupado. A investigação, com efeito, atingiu a cúpula do PT por obra do Ministério Público e da Polícia Federal. José Dirceu caiu logo depois. Mas o então presidente não entregou ninguém aos leões. Bolsonaro não é do tipo que pede desculpas, como revela o episódio das barbaridades que disse à petista Maria do Rosário. Age como se Bebianno não tivesse sido seu braço direito na campanha. Passa um recado a quem quiser ser seu aliado: “Neste governo, é preciso ter sangue Bolsonaro para ser poupado”. A política é um território afeito a traições, claro! Mas é preciso haver alguma lealde ao menos para atravessar o rio. Ou estamos na fábula do sapo que dá carona ao escorpião. É claro que o episódio fará muita gente pensar: quanto vale a fidelidade ao presidente? E, convenha, o agora ministro foi fidelíssimo. Do ponto de vista exclusivamente deles, não da lei, está sendo injustiçado. Mas reitero: espantam o modo, a exposição ao ridículo, a humilhação.

ABERRAÇÃO 4: Bolsonaro exigiu Bebianno no comando do PSL. E se for usado para o caso o “Método Lava Jato”, que levou Lula à cadeia?

E aqui cumpre destacar uma questão muito relevante, já bastante exótica à época. O então deputado Jair Bolsonaro anunciou a sua candidatura, mas não sabia por qual partido. Acabou migrando para o PSL de Luciano Bivar, então na presidência da legenda. Qual foi a exigência do candidato? O comando do partido, em caráter temporário, enquanto durasse a campanha, teria de ser passado a uma pessoa de sua estrita confiança, que falasse por ele. E foi assim que Gustavo Bebianno se transformou numa figura única na história das eleições: um presidente temporário de legenda. Analisando a questão, Sérgio Moro, o ministro da Justiça, seria levado a constatar que a interferência de Bolsonaro na assunção de Bebianno como chefe do partido foi muito mais direta do que a de Lula na nomeação dos diretores da Petrobras. Ora, ora… Sem a suposição — e isto está lá nas sentenças de Moro e de Gabriela Hardt, sua discípula — de que Lula tivera interferência direta na composição das diretorias da Petrobras, como ligar as falcatruas na empresa ao apartamento de Guarujá e ao sítio? Sim, todos os que lemos as duas sentenças — umas dez pessoas —, sabemos que a ligação entre os contratos e a suposta propina nunca foi estabelecida. Mas se assegura em ambas: Lula era o garantidor último da permanência daqueles diretores em seus respectivos cargos. E acabou recendo favores de empreiteiras. Logo… Não há dúvida de que Bolsonaro foi o promotor e o garantidor de Bebianno na chefia do PSL. Ora, o que quer que este tenha feito, convenham, o fez em benefício do agora presidente também. Vai que dê a louca em Bebianno, cansado de ser tratado como pária, e ele demonstre que parte dos desvios de recursos, supostamente gastos pelas laranjas, foi parar na campanha presidencial… E aí?

ABERRAÇÃO 5: Bolsonaro, letal com Bebianno, passa a mão na cabeça dos “garotos”, como chama os filhos, quando estes se complicam

Espanta ainda outra coisa: por enquanto, o que há contra Gustavo Bebianno são indícios muito fortes de que o PSL recorreu a laranjas na campanha. A investigação ainda está no começo. O presidente, no entanto, decidiu tritura-lo com desonra. Que diferença, não é?, quando quem está na berlinda é um dos filhos. O pai presidente os chama de “garotos” e passa a mão em sua cabeça. Fez isso quando Eduardo afirmou que um cabo e um soldado fechariam o Supremo sem nem precisar de jipe. E “garoto” foi também a palavra que empregou para se referir a Flávio, agora senador, nos escândalos da Alerj e das milícias.

ABERRAÇÃO 6: Mercado vê, por ora, a reforma da Previdência como algo que não depende da política. Erro. Desordem pode atrapalhar muito

Eles são todos da mesma turma. Que se entendam. Por enquanto, a reforma da Previdência é vista pelo mercado como algo que independe da política. É uma ilusão. Com essa inabilidade e com essa rapidez para esmagar mesmo os amigos, o trâmite da dita-cuja pode ter vida difícil. O tal mercado pode descobrir mais cedo do que seria desejável que a reforma é, sim, muito importante, mas panaceia não é. Há males que ela não cura. E a desordem no governo e no Congresso — e os celerados pretendem arrastar o Judiciário — é um deles.

Reinaldo Azevedo
Jornalista e Comentarista da Rede TV News

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